Vez ou outra, quando perguntam o que eu tenho feito no trabalho aqui na Alemanha, respondo que tenho trabalhado num “Treatment” e ninguém sabe direito o que é. Vale lembrar que os Alemães não tem palavra própria pro negócio: Treatment é Treatment e Exposé é Exposé, enquanto no Português o Treatment é traduzido pra tratamento e o Exposé, se não me engano, é um argumento.
Um tratamento é basicamente o conceito do filme, principalmente referindo-se ao roteiro. Imagine um produtor, ou um agente, que tem que pesquisar roteiros pra saber pra qual ele vai sair correndo atras do dinheiro. Um roteiro tem em média um minuto de filme por página e um filme tem em média 120 minutos de duração. Agora multiplique isso por uma média de 30 roteiros que um agente de autores de roteiro recebe em cima da mesa e você percebe a necessidade do tal do tratamento. O mesmo vale para os institutos de financiamento cultural, as famosas Staatsförderungen.
Cada roteirista tem seu tipo de tratamento, mas 99% (eu incluso) começam com um Exposé, que serve como a isca que a pessoa tem que morder. No Exposé está uma versão resumida da história, mas sem ser contada de forma linear. É mais uma descrição da história, inclusive com informações mais abstratas, do que realmente a história detalhada em sequência. O Exposé serve pra realmente despertar o interesse, e principalmente pra mostrar o valor do filme, já dando, de forma pouco apelativa, o motivo pelo qual esse filme tem uma ligação com o público, qualquer que ele seja.
Um erro que eu cometia era colocar as informações do público no final do tratamento, não dentro do Exposé. O que eu aprendi é que quem lê isso não é burro e não gosta de ser ensinado coisa. Eles que decidem, pelo que estão lendo, se o público vai gostar disso ou não. Como consequência, essas informações no Exposé são mais abstratas ainda. Tal mulher representa a força feminina, esse vilão é o típico vilão da sociedade moderna, etc.
Depois do Exposé, que NUNCA deve exceder uma página, vem a Sinopse. Eu procuro, pelo menos no começo, dividir minhas sinopses entre os atos do filme. Segundo Syd Field, Um filme é dividido entre um primeiro ato que ocupa 1/4 do filme, um segundo ato que ocupa metade do filme, e finalmente um terceiro ato que ocupa o restante (1/4). Eu nunca fui muito de seguir regras, mas essa ideia do Field oferece uma base pra começar a escrever, já que funciona em grande parte dos casos ter bons pontos de virada entre tais “atos”. O último tratamento que eu escrevi tinha um primeiro ato de 1/8 da história, um segundo de 3/8 e o terceiro com metade da história. Porem, no meu terceiro ato acontece MUUUUITA coisa, então vale arriscar. Neste último caso, também, minha história tinha um prólogo e um epílogo, que não é comum em roteiros.
Finalmente, a última parte dos meus tratamentos tem uma descrição das personagens principais, e secundários que vale a pena mencionar. Como o filme que eu estou escrevendo envolve um certo mistério, e nesse ponto o leitor já sabe tudo por causa da sinopse, eu ofereço a ideia que o filme passa pro público, a história real (revelada no final) e que significado esse personagem tem pro público, basicamente falando por que ele ou ela é relevante.
Isto acima é um MEU tratamento, mas como eu disse, todo mundo faz diferente. O conceito é basicamente o mesmo: um documento de entre 10 e 15 páginas descrevendo como será o filme caso ele saia do limbo da pré-pré-produção. Existe gente que escreve tratamentos de mais de 30 páginas, mas não ache que porque o Tarantino pode fazer (e o Lorenzo di Bonaventura lê) que você pode fazer também. Um tratamento de 15 páginas da muito trabalho pelo seguinte:
O “Flowers by the Millions” já tem 1 rascunho de roteiro com 4 revisões, e o tratamento está agora na oitava versão, sendo que esta vai requerir um roteiro novo, não uma revisão dele. O trabalho nele começou em Janeiro de 2008. Quando já se tem o filme na cabeça, é muito dificil filtrar as informações certas. Outro motivo é que é dificil escrever um tratamento bem. Uma das regras básicas de filme é que o roteiro nunca é lido, portanto situações como “ele olha ela com um olhar profundo e pensa nos campos de girassóis da sua juventude” são irrelevantes. Escrever bonito normalmente significa comparar coisas, como a porta que parecia de um castelo medieval, etc. e isso nunca vai num roteiro, o que não é ruim por que um roteiro já tem uma formatação feia de qualquer jeito (Escrito em Courier New, com cenas escritas em CAPS e diálogos e personagens centralizados, etc.). Tem alguns que se atrevem a descrever coisas abstratas em roteiros, mas via de regra não. É direto, ele foi do ponto A ao ponto B e fez ação X com fulano de tal. O mesmo vai pro tratamento, e aí fica feio que dói. Então a eloquência e exercicio do vocabulário são bem vindos.
Fora isso tem a parte criativa, que basicamente é 100% minha até o produtor olhar e falar que tá tudo um lixo. Não foi o caso e eu acho que eu até que me entendo bem com o meu produtor, mas só o futuro dirá.
Bom, agora vocês sabem. Se eu falar que eu to fazendo um tratamento, é isso aí em cima
Bjs e abs.




































































